O vergonhoso fim da Lei de Gerson

Em 1976, a Agência Caio Domingues & Associados, contratada pela fabricante de cigarros J. Reynolds levou à TV a peça publicitária que apresentava Gerson como um dos cérebros da Seleção brasileira da copa de 70. Gerson está sendo entrevistado em uma sala de visitas, fala das vantagens de fumar o cigarro Vila Rica e afirma “Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem vc também…” ()

Na consciência popular, esta publicidade, aparentemente ingênua,  transformou-se no estereotipo  do jeitinho brasileiro, logo definida como Lei de Gerson. Desde então o nome de um dos principais jogadores de futebol da seleção de 70 passou a estar associada a todas as jogadas nem tão éticas em todas as relações, e principalmente nas relações políticas e econômicas. Bom mesmo é levar vantagem…

Gerson arrependeu-se de ver seu nome associado a uma lei que valorizava justamente as ‘jogadas’ sem lei nos mais diversos universos do cotidiano humano. Mas já era tarde. Para sempre a Lei de Gerson passou a ser sinônimo da malandragem, da corrupção, da capacidade de dar nó em pingo d’água para obter alguma “vantagem”.

Enquanto um texto publicitário transformava um ídolo nacional em fumaça nas baforadas reproduzidas na telinha para vender cigarros, a lei que se deduziu desta mídia espalhou-se qual névoa da madrugado pelo território e pala história brasileira. Não é difícil ver na história de nossa nação as terríveis marcas que a lei da vantagem deixou na política, na saúde, na economia e no futebol. Não que ela já não existisse, mas agora tinha um nome próprio e o apoio involuntário de um ídolo nacional…

A Lei de Gerson que nasce, tendo como protagonista um dos principais jogadores da copa de 70, acaba, por fim, humilhada na copa em solo brasileiro em 2014.

De 70 para os dias de hoje vimos o futebol nacional transformar-se em nova colônia do poder econômico e subserviente aos grandes times do primeiro mundo. Alvo dos caçadores de talento por um lado, ansiosos pelas vantagens de lançar o nome de jovens craques e ganhar muito dinheiro com isso. De outro lado, os clubes nacionais transformam-se em incubadoras ansiosas por vender jogadores para o exterior.e obter lucro. Sonho de menino com bola no pé hoje é jogar em times da Alemanha, da Espanha…

Não há porque citar os processos, ainda em andamento, da venda do jogador Neymar para o exterior. Certamente este é apenas mais uma ponta do iceberg que se esconde no mar de situações inexplicáveis que rondam times de futebol, CBF e tantas outras entidades que sobrevivem  do futebol.

A derrota da seleção do Brasil, na copa da FIFA de 2014 em solo brasileiro, não foi a derrota dos 12 jogadores que estavam em campo. Besteira. Estes meninos não têm culpa de fazerem parte de uma estrutura falida, acostumada a ‘levar vantagem’ em um País que parece alegrar-se em voltar a ser colônia. Perder da Alemanha por 7 a 1 não foi obra de um apagão de 7 ou 10 minutos, como os comentaristas esportivos nos querem fazer acreditar.  Estamos diante de um apagão de meio século, de um País que parece acreditar que a Lei de Gerson e o Zé Carioca, dos quadrinhos de Walt Disney, têm razão. Acreditamos que este é um país do futebol, do carnaval, belas mulatas e muita pizza.

Enquanto isso, outros países têm feito a tarefa de casa. Evoluíram. Não só no futebol. Mas na saúde, na educação, na política, na cultura. Transferem para o futebol a índole de povos capazes de sobreviver às cinzas da guerra e a superação da miséria.  A Alemanha chega a copa sem ídolos, mas com uma grande equipe. Já há mais de vinte anos que os mais diversos setores da educação e da economia alertavam que o futuro seria ocupado pelo trabalho em equipe. Bernardinho, técnico da seleção de vôlei do Brasil já havia demonstrado isso. Porém, qual ressaca depois da festa, o futebol brasileiro continua insistindo em buscar ídolos, salvadores da pátria. O futebol brasileiro vive de lembranças, saudades dos ídolos e iludido pela fumaça de um ou outro excelente jogador que aparece de vez em quando. A mídia esportiva esforça-se, a cada ano, em descobrir entre as pernas que lutam pela bola nos campos de futebol aqueles que serão os novos Pelés ou os novos Garrinchas. 

Por fim, depois de um vexame de 7 a 1 é hora de crescer. O bom futebol só pode ser conquistado com um País bem alimentado, que tenha uma infraestrutura digna de saúde, educação, transporte e política. A vergonha dos 7 a 1 deve nos ensinar que o trabalho em equipe é muito mais eficaz do que acreditar em ídolos. Estes estão ultrapassados e tombam rapidamente no combate. Não precisamos de ídolos nem no futebol, nem na política. Carecemos de projetos capazes de construir um país para um povo.  O circo caiu. A Lei de Gérson está ultrapassada.  Já é hora de despertar do “berço esplêndido”!

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