Exilados no próprio País…

Há algum tempo, ao ler jornal ou ver o noticiário na TV é possível ter a terrível sensação de se estar exilado no próprio País. Não é um sentimento de amargura ou desespero. Pelo contrário, é uma necessidade de buscar entender melhor o modelo de sociedade no qual vivemos, mas não escolhemos.
Ninguém escolhe viver em uma sociedade onde crianças atiram em pais de família. Ou em uma sociedade onde crianças estão abandonadas, sem pais, sem escola e sem condições de vida ou de receber qualquer formação para enfrentar a vida e o futuro. Não se escolhe viver em uma sociedade onde se gasta muito mais em blindagem de carros e sistemas de câmeras de segurança do que em escolas e hospitais. Ninguém deseja viver em um País onde há corrupção. E os corruptos, em todos os partidos políticos e instituições do Estado, se apropriam indiscriminadamente do dinheiro público: transformam em propriedade privada o dinheiro e os bens que deveriam servir a todo o povo. A ação destes bandidos rouba a escola, rouba o hospital, rouba o transporte público, assassina o futuro de nossas crianças. Sem usar armas de fogo, os corruptos assassinam centenas de vidas a cada dia em seus escritórios, em seus acordos fraudulentos.
Este universo de coisas só parece ser possível a partir do momento em que se perdeu o sentimento pátrio. Um corrupto não tem pátria. Não tem qualquer sentimento de nacionalismo. Busca apenas sugar tudo o que pode, sem jamais pensar no futuro da nação ou nas necessidades dos outros cidadãos.
No outro extremo desta imagem triste está o cidadão: cada um de nós que desejamos um país sem violência, com escola, com hospital, moradia, com trabalho e com fartura para todos. A estes parece que resta lembrar as palavras do poeta: “Minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o Sabiá; /As aves que aqui gorjeiam,/Não gorjeiam como lá.”
Porém, o grande problema deste sentimento, de se estar exilado no próprio país, é a condição de que não há para onde voltar. Ao menos não, enquanto todos continuarem acomodados e calados, buscando no máximo a própria segurança, sem que se exija uma ação global capaz de construir projetos para o desenvolvimento do homem/mulher, capaz de aprimorar a vida e não o LUCRO. Enquanto a meta de um País for o índice de crescimento econômico e não o bem-estar de seu povo, este não é um País, não pode ser chamado de Nação! É apenas uma máquina devoradora de vidas, onde todos os cálculos e artimanhas são possíveis para salvar a economia, mesmo que isso custe vidas humanas.
A continuarmos neste mesmo passo não haverá como cantar a última estrofe de Gonçalves Dias: “Não permita Deus que eu morra, / Sem que eu volte para lá; / Sem que desfrute os primores / Que não encontro por cá; / Sem que ainda aviste as palmeiras, / Onde canta o Sabiá.” Pois, se nada for feito em defesa da cidadania, em defesa do País, para que recobre seu status de Nação… Se nada for feito para que nossas crianças tenham escola e diversão, não há para onde voltar…

(Editorial, Jornal Presença Diocesana, n. 148, dezembro de 2013)

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