DAS RUAS AOS ESTÁDIOS: UM POVO BOM

Povo vai às ruas em Belo horizonte

Povo vai às ruas em Belo horizonte

Há uma maneira de SER BRASILEIRO que nos destaca como um povo diferente, que vai para além, muito além da alegria, ou do samba, é uma marca em nosso povo, que faz de nós a capacidade de SERMOS BRASILEIROS.
Nos estádios, quase que imediatamente, sem aviso prévio ou combinação, a multidão de torcedores tem se unido e torcido pelo mais fraco. Foi isso que transformou o jogo Espanha x Taiti num grande espetáculo. Se o melhor do futebol é o gol, naquele dia o melhor era a torcida. Os 10 gols da Espanha serão esquecidos, mas a emoção do goleiro do Taiti jamais. O mesmo pode-se dizer da atuação da seleção do Japão, que imediatamente obteve o apoio da torcida no jogo contra a Itália. A decisão da torcida tem sido pelo mais fraco, não por malícia ou por interesse de eliminar os competidores mais fortes, mas por SOLIDARIEDADE. Esta opção fica transparente principalmente, quando os mais fracos representam a simplicidade de homens trabalhadores, que nem mesmo são profissionais do esporte, mas trabalhadores que jogam com a alma e têm a coragem de se apresentar em uma competição internacional para defender as cores da bandeira de seu país, e, depois, retornarão para seus lares e seus afazeres: pintores, pedreiros, pescadores e tantos outros afazeres.
O mesmo se deu nas ruas. No início dos movimentos, as primeiras concentrações foram tragicamente desmoralizadas pela mídia e pela força policial. Chamados de baderneiros, os jovens foram traiçoeiramente violentados pelas balas de borracha e pelas bombas de gás. Provou-se depois que houve exageros. Aqueles que deveriam proteger o povo posicionaram-se contra o povo. Com armas ou com letras, todos fuzilaram o movimento que começava a ganhar as ruas para denunciar uma situação inadmissível: aumentos nos transportes… e depois vieram as outras pautas: corrupção, contra a PEC 37, a falta de apoio à educação e à saúde enquanto bilhões de Reais estavam sendo gastos nos estádios.
O mesmo sentimento dos estádios espalhou-se pelas ruas. O brasileiro não consegue ver o mais fraco apanhar. Neste caso não só torceu pelo mais fraco, uniu-se a ele para dar-lhe força. Nos dias seguintes ao trágico início do movimento em São Paulo, multidões assumem as ruas, demonstrando que o movimento não era a causa da violência, mas a perfeita resposta a uma violência que a Nação vem sofrendo dia por dia em escolas esquecidas, sem teto e sem carteiras. Violência sofrida pelos professores mal pagos e desrespeitados em sala de aula. Violência no transporte urbano que visando ao lucro fácil espreme o povo em latas de sardinha motorizadas, qual gado a caminho do matadouro. Violência dos aumentos abusivos dos salários do políticos enquanto o salário mínimo é apenas corrigido abaixo da inflação. Violência de vidas abandonadas nos corredores dos hospitais, por falta de leitos, de médicos e de medicamentos. Toda esta história se arrasta em nossas vidas por 10, 20, 50, 100 anos. Sempre com a desculpa que não há dinheiro. Mas aí, da noite para o dia, aparece dinheiro para reformas bilionárias em estádios de futebol. Isso sim é uma grande violência. Violência é os políticos conseguirem liberar bilhões de reais para a reforma de um estádio, mas serem incapazes de liberar verbas para a reforma ou a construção de hospitais e escolas. Violência é o salário do político que hoje pouco ou nada contribui para qualidade de vida deste país em comparação ao salário de um professor, de um médico… Isso sim é violência. Isso sim é ultrajante.
Mas voltando a beleza do movimento invadiu as ruas de todo país. Os marginais infiltrados buscavam justamente passar a imagem de que o movimento era feito por gente violenta, capaz de quebrar tudo. Mas se um primeiro tempo, marginais, mídia e polícia conseguiram agir em coro, na sequência o movimento conseguiu demonstrar sua seriedade e afastou a pecha que já recaia sobre seus ombros. A polícia teve que rever suas ações e a mídia contrariada, teve que amenizar seu discurso. Porém, despreparada e maliciosa, a mídia não conseguiu superar a dualidade de seu discurso, e a única coisa que conseguiu noticiar foi: o manifesto pacífico x um pequeno grupo de baderneiros. Se espremer os noticiários da Globo, não se consegue muito mais do que isso. A velha, tradicional e fundamentalista dualidade.
A truculência policial e a pouca sensibilidade da mídia a serviço do poder econômico serviram de catalisadores e contribuíram para o engrossamento rápido das fileiras de povo na rua, pois o movimento soube demonstrar que violentos não eram eles. Viva a internet e aos celulares que às centenas multiplicaram fotos e vídeos que a TV oficial jamais teria mostrado.
Isso amplia nossa reflexão para outra realidade muito importante. A liberdade de imprensa: historicamente definida e defendida após a Revolução Francesa, a liberdde de imprensa aparece como o quarto poder. O jornalismo seria “o espaço crítico” do poder instituido, “voz do povo” para evitar que o poder reassumisse as características imperiais que antecederam a Revolução Francesa. De lá para cá, perdeu-se o contexto, ficou-se com o chavão: a liberdade de imprensa é uma das colunas de sustentação da democracia. E seria! Se não tivesse o jornalismo se transformado em EMPRESA JORNALISTICA a serviço e subserviente ao poder econômico. Em terras onde o poder econômico fala mais alto até mesmo que a justiça e o judiciário…. Em terras onde a corrupção não é criminalizada e os corruptos mesmo condenados continuam a participar do governo…. Uma empresa jornalística que tem como finalidade gerar lucros não há de estar preocupada em ser ou fazer crítica ao governo e aos desmandos dos políticos. Pelo contrário, este é um jornalismo de tapete, habilidoso em esconder a sujeira debaixo do tapete e lançar louros para os poderosos a fim de conquistar a publicidade distribuída pelo poder executivo e pelo poder legislativo nos níveis municipais, estaduais e federais. São gordas verbas de “cala boca” ambicionadas pelas empresas de comunicação, além de tantas outras verbas que se distribuem nos mais diversas campanhas feitas por todo o país. Não por menos, o estopim de todo o processo do mensalão tem seu epicentro em uma agência de publicidade.
Nesta sofisticada teia, temos a nossa sociedade, onde constantemente o status quo busca criminalizar a favela e a pobreza. Pois não é bom para a manutenção da estrutura de nossa sociedade que os pobres sejam vistos como o elo fraco em nossa sociedade, Por isso há tamanho esforço para tentar construir a imagem do pobre como preguiçoso, violento ou bandido. Pois só assim a sociedade brasileira não criará empatia pelo mais fraco. A mesma empatia e solidariedade que tem emocionado os estádios nos jogos com os times considerados mais fracos na competição: Taiti, Nigéria ou mesmo Japão. Mas o Brasil está levantando-se de se berço esplêndido. Quando estas barreiras caírem, quando o pobre não for mais marginalizado, criminalizado e finalmente visto como um brasileiro que tem sofrido a violência da injusta lógica do capital, haveremos de fazer muito mais do que colocar 2 milhões de pessoas caminhando juntos na rua. Quando isso acontecer, vamos reconstruir esta Pátria em MUTIRÃO.

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